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domingo, 11 de setembro de 2011

Criadores disputam nome de raça bovina

Criadores do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina disputam o direito de poder nomear a raça bovina Criadores de gado do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina 'estão em pé de guerra'. Tudo porque, tanto os catarinenses quanto os gaúchos querem ter o direito de nomear uma determinada raça bovina criada nos dois estados. O gado, que tem grandes e pontudos chifres, é chamado de Crioulo Lageano em Santa Catarina e Franqueiro no Rio Grande do Sul. Criadores dos dois estado pleiteiam o pioneirismo da criação e o direito de sediar a associação nacional e obter o registro da raça. A briga pelos direitos de nomear a raça não é novidade, mas ganhou mais notoriedade na Expointer, que aconteceu em Esteio (RS). A antiga disputa já havia levado os organizadores da feira a retirar a exposição de Franqueiros no evento, mas neste ano, eles puderam voltar à feira, embora proibidos de participarem de concursos. Nesta edição, novamente utilizaram o nome Franqueiro e despertaram a revolta dos criadores de Crioulo Lageano. A discussão novamente ganhou fôlego. Em 2006, os criadores gaúchos fundaram a Associação Brasileira de Criadores de Bovinos Franqueiros (ABCBF), em Gramado (RS) e, dois anos mais tarde, os catarinenses registraram a Associação Brasileira de Criadores de Gado Crioulo Lageano (ABCGCL), com base na Portaria 1.048 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), em 31 de Outubro de 2008, que também concedeu aos catarinenses o direito de registrar os animais da raça em todo o país e efetuar os trabalhos genealógicos. Segundo a ABCGCL, existem no Brasil aproximadamente 27 criadores e um rebanho de três mil animais espalhados pelos estados de Santa Catarina, São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Goiás. 80% de todo o gado estaria em Sata Catarina. A ABCBF diz que no Rio Grande do Sul há cerca de onze criadores e 200 animais, um rebanho bem menor que o de Santa Catarina, mas mais antigo e tradicional e por isso, o direito do nome seria deles. Edison Martins, presidente da ABCGL, acusa os criadores gaúchos de prejudicarem a raça e os demais criadores por usarem um nome falso para o gado. "É preciso cumprir a portaria ministerial. Eles (os gaúchos) poderiam registrar seus animais através da nossa associação sem necessariamente serem associados, mas isso não está acontecendo. Pelo contrário, há prejuízo para os criadores quando eles apresentam este gado com outro nome", protesta Martins. Sebastião de Oliveira, presidente da ABCGF, reconhece que o gado franqueiro não tem registro no Mapa, mas defende uma nomemclatura que exclua a denominação lageana. "Criamos este gado aqui no Rio Grande do Sul há dois séculos, este gado não é de Lages. Defendemos então que utilize o nome crioulo apenas, mas não lageano", defente Oliveira. Gado preservado O boi em questão - Lageano ou Franqueiro - provavelmente descende dos bovinos hamíticos, que também já tinham chifres longos. Da África, migraram para o Sul da Espanha e Portugal. No Brasil, chegou na época da colonização e eles dominaram a região Sul até o início do Século XX, quando outras raças européias começaram a chegar. No entanto, o material genético desta raça foi preservado por criadores de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Segundo o pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, Arthur Mariante, a adaptação desse bovino ao longo dos séculos resultou em uma enorme rusticidade, traduzida numa adaptação às baixas temperaturas registradas naquela região. Os bois Franqueiros e Lageanos são de grande porte, produtores de carne com aptidão leiteira. Fonte: Globo Rural On-line

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Registro de descendentes do touro gir Radar dos Poções





O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) aprovou novos procedimentos para a concessão do Registro Genealógico (RGN e RGD) aos animais registrados pela Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) como filhos do reprodutor da raça Gir, Radar dos Poções. A proposta, apresentada pela Comissão da Raça Gir, também havia sido aprovada pelo Conselho Deliberativo Técnico durante reunião realizada no dia 27 de julho de 2011.

As alterações referem-se exclusivamente aos casos em que não for possível identificar a paternidade do zebuíno anteriormente registrado como descendente do touro Radar dos Poções. No caso da paternidade indefinida, o animal terá a linha paterna (Radar dos Poções) eliminada, mas manterá a linha materna. O produto, seja ele macho ou fêmea, passa a ser considerado como Livro Aberto de primeira geração (LA1), porém terá garantido o direito de ser utilizado na seleção. Vale ressaltar que o uso de touros LA se restringe apenas a esse caso, além daquelas exceções previstas no Regulamento do Serviço de Registro Genealógico das Raças Zebuínas.

A confirmação da paternidade em todos os casos envolvendo filhos do touro Gir só poderá ser feita por meio do exame de DNA, realizado a partir do perfil genético oficial estabelecido pelo MAPA.

Para os demais casos, continuam valendo os procedimentos comunicados oficialmente em 11 de março de 2011. Leia em anexo, na íntegra, o Comunicado Técnico da ABCZ e os fluxogramas indicando quais os procedimentos que devem ser adotados em cada situação.

Click aqui e faça o download do comunicado:
http://issuu.com/grupopublique/docs/comunicado_te_cnico__ok__final

Fonte: Laura Pimenta / Assessoria de Imprensa da ABCZ

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Congresso Brasileiro das Raças Zebuínas contará com Sessão Pôster

O Pavilhão Multiuso do Parque Fernando Costa, em Uberaba/MG, abrigará entre os dias 15 e 19 de agosto, a Sessão Pôster do 8º Congresso Brasileiro das Raças Zebuínas, que acontece paralelamente à ExpoGenética 2011. No local, serão expostos quase 30 trabalhos com diversos temas sobre as raças zebuínas.
Confira abaixo a relação de pôsteres inscritos:

Produção in-vitro de embriões de doadoras da raça Gir (Bos taurus indicus) influência do escore da condição corporal - Autores: Marcos Brandão Dias Ferreira, Beatriz Cordenonsi Lopes, Leonardo de Oliveira Fernandes, Marina Ragnini Lima e Joaquim Mansano Garcia.

Produção in-vitro de embriões de doadoras da raça Gir (Bos taurus indicus) influência do DNA mitocondrial da doadora - Autores: Marcos Brandão Dias Ferreira, Beatriz Cordenonsi Lopes, Leonardo de Oliveira Fernandes, Marina Ragnini Lima e Joaquim Mansano Garcia.

Relação do Ganho de Peso com o Temperamento do Bovinos - Autores: Désirée R. Soares, Joslaine N. S. G. Cyrillo, Mateus J. R. Paranhos da Costa, Aline C. Santa`Anna, Tiago da S. Valente, Paola M. Rueda e Karen Schwartzkopf-Genswein.

Correlação entre desempenho de Bovinos Brahman numa Prova de Ganho em Peso Coletiva (PGP) e os Escores Igenity - Autores: Adalberto Rezende Santos, Aldo Silva Valente Júnior, Luis Sérgio Mendes Serra, Eduardo Wermeck-Barroso e Thiago Camargo Vieira.

Parâmetros genéticos para características de desempenho em tourinhos da raça Nelore em provas de ganho em peso a pasto - Autores: Breno de Oliveira Fragomeni, Daiane Cristina Becker Scalez, Paula Teixeira da Costa, Tiago Luciano Passafaro, Idalmo Garcia Pereira, Fábio Luiz Baranelo Toral, José Aurélio Garcia Bergman e Humberto de Freitas Tavares.

Classificação quanto a características fisiológicas de bovinos da raça Brahman da prova de ganho de peso pela metodologia de componetes principais - Autores: Carolina C. N. Nascimento, Isabel C. Ferreira, Mara R. B. M. Nascimento, Natasha A. M. Silva, Diego P. Borges, João C. G. César e João P. C. Cubas.

Características termorreguladoras de bovinos da raça Brahman em ambiente tropical - Autores: Carolina Cardoso Nagib Nascimento, Mara Regina Bueno de Mattos Nascimento, Isabel Cristina Ferreira, Natascha Almeida Marques Silva, Diego Paiva Borges, João Ciscone Geocondo Cesar e João Paulo Carvalho Cubas.

Análise de agrupamento de bovinos da raça Brahman por meio de características ambientais e fisiológicas em clima tropical - Autores: Carolina Cardoso Nagib Nascimento, Mara Regina Bueno de Mattos Nascimento, Isabel Cristina Ferreira, Natascha Almeida Marques Silva, Diego Paiva Borges, João Ciscone Geocondo Cesar e João Paulo Carvalho Cubas.

Classes de variâncias residuais em modelos de regressão aleatória para análise do crescimento de tourinhos Nelore em provas de ganho em peso - Autores: Fábio Luiz Buranelo Toral, Daiane Cristina Becker Scalez, Breno de Oliveira Fragomeni, Pablo Gomes de Paiva, José Aurélio Garcia Bergaman e Vanessa Aparecida Praxedes.

Alternativas para avaliação e classificação de tourinhos Nelore em provas de ganho em peso a pasto - Autores: Fábio Luiz Buranelo Toral, Breno de Oliveira Fragomeni, Daiane Cristina Becker Scalez, José Aurélio Garcia Bergman, Tiago Luciano Passafaro, Paula Teixeira da Costa e Humberto de Freitas Tavares.

Avaliação de fatores de variação genética e de manejo na intensidade de infestação parasitaria em gado Nelore - Juan Pablo Botero Carrera, Dalinne Chriystian Carvalho dos Santos, Daiane Cristina Becker Scalez, Talita Pilar Resende, Luiza Bossi Leite, Tiago Luciano Passafaro, Ana Cristina Passos Bello, Fábio Luiz Buranelo Toral, Eduardo Penteado Cardoso, Romário Cerqueira Leite e José Aurélio Garcia Bergmann.

Influências de parasitas gastrointestinais no ganho de peso de bezerros Nelore Lemgruber na fase de recria - Autores: Juliano Bérgamo Ronda, Silvia Cassimiro Brasão, Joely Ferreira Figueiredo Bittar, Estáquio Resende Bittar e Marcus Vinicius Caatano de Sousa.

Desempenho reprodutivo de vacas Brahman submetidas à avaliação de carcaça por ultrassom - Autores: Luís Sérgio Mendes Serra, Aldo Silva Valente Júnior, Thiago Camargo Vieira, Adalberto Rezende Santos e Eduardo Werneck-Barroso.

Influência do ganho de peso na enzimalogia de nelores lemgruber na recria em diferentes manejos - Autores: Nathan da Rocha Neves Cruz, Joely Ferreira Figueiredo Bittar, Wanderson Adriano Biscola Pereira e Eustáquio Resende Bittar.

Perfil das proteínas, metabólitos, mineiras, enzimas e hormônios tireoidianosde bezerros Brahman - Autores: Pablo Gomes Noleto, João Paulo Carvalho Cubas, Felipe Cesar Gonçalves, Luís Sérgio Mendes Serra, Thiago Camargo Vieira, Natascha Almeida Marques Silva e Antonio Vicente Mundim.

Correlações entre escores visuais do método EPMURAS e características produtivas de animais da raça Nelore oriundos de provas de ganho de peso a pasto - Autores: Paulo Ricardo Martins Lima e Concepta Margaret Mcmanus Pimenta.

Relação entre comportamento ingestivo e níveis séricos de cortisol com consumo alimenta residual de novilhas Nelore - Autores: Renata Helena Branco, Elaine Magnani, Joslaine Noely dos Santos Gonçalves Cyrillo, Maria Eugenia Zerlotti Mercadante, Cleisy Ferreira do Nascimento, Julian Aldrighi e Ana Paula de Melo Caliman.

Estudo alométrico de bovinos da raça Guzerá em prova de ganho em peso a pasto - Autores: Ricardo Costa Sousa, Idalmo Garcia Pereira, Rafael Augusto Martins de Oliveira, Ana Paula Lopes Tonaco, Paulo Eduardo Pedrosa Barros e Gabriela Maldini Penna de Mascarenhas Amaral.

Curva de crescimento de bovinos da raça Guzerá em prova de ganho em peso a pasto - Autores: Ricardo Costa Sousa, Idalmo Garcia Pereira, Rafael Augusto Martins de Oliveira, Ana Paula Lopes Tonaco, Paulo Eduardo Pedrosa Barros e Gabriela Maldini Penna de Mascarenhas Amaral.

Ampliação do escopo de avaliação em provas de ganho em peso a pasto (PGPP) - Autores: Thiago Camargo Vieira, Aldo Silva Valente Júnior, Luis Sérgio Mendes Serra, Eduardo Werneck-Barroso, Adalberto Rezende Santos e Lydio Cosac de Faria.

Estudo da variabilidade genética de bovinos da raça Nelore criados no centro oeste - Autores: Thiago Sanches Aguiar, Thiago Bruno Ribeiro da Silva, Cláudio Vieira de Araújo, Thereza Cristina Borio dos Santos Calmon de Bittencourt, Simone Inoe Araújo, Raysildo Barbosa Lôbo, Luiz Antônio Framartino Bezerra e Alessandra Alves da Silva.

Estudo preliminar da estimação da reatividade de animais da raça Brahman - Autores: Walsiara Estanislau Maffei, Luis Sérgio Mendes Serra e Thiago Camargo Vieira.

Avaliação da resistência a helmintos Gastrointestinais e sua relação de interferência com o ganho em peso em bovinos da raça Brahman - Autores: Weberson Carvalho de Brito, Luis Sérgio Mendes Serra, Thiago Camargo Vieira, Aldo Silva Valente Júnior, Eduardo Werneck Barroso e Adalberto Rezende Santos.

Análise de carcaça e rendimento de cortes nobres do traseiro de machos Nelore classificados para consumo alimentar residual - Autores: Eduardo Figueiredo Martins Bonilha, Renata Helena Branco, Sarah Figueiredo Martins Bonilha, Leandro Sannomiya Sakamoto e Tatiana Lucila Sobrinho.

Valores de pH em carcaças de bovinos Nelore classificados para consumo alimentar residual - Autores: Sarah Figueiredo Martins Bonilha, Renata Helena Branco, Karina Zorzi, Eduardo Figueiredo Martins Bonilha, Leandro Sannomiya Sakamoto e Leonardo Tadashi Egawa.

Correlações simples entre peso, medidas na carcaça e no animal vivo e cortes primários da carcaça - Autores: Leandro Sannomiya Sakamoto, Sarah Figueiredo Martins Bonilha, Renata Helena Branco, Elaine Magnani, Eduardo Figueiredo Martins Bonilha, André Luiz Grion, Angelo Polizel Neto e Maria Eugênia Zerlotti Mercadante.

Por: Laura Pimenta
laurapimenta@netsite.com.br

terça-feira, 9 de agosto de 2011

O óbvio ululante e as meias verdades na Gir, por Luiz Humberto Carrião

Não existe nada de mal em constatar o óbvio ululante. Afinal, o óbvio só veio a se tornar óbvio porque ele precisou ser reafirmado e reconhecido muitas vezes. O que não dá mesmo é contemplar o óbvio para sorrateiramente escorregar para as meias verdades. O problema é que as meias verdades nunca andam sozinhas: elas precisam se apoiar ora numa mentira, ora numa omissão. Juliana Santos Botelho/cronicasdejuvenal.blogspot.com.

Discutir a aptidão leiteira da raça Gir é discutir o óbvio. Afirmar que essa aptidão vem desde a origem, Índia, é constatar o óbvio. Com a tradição religiosa impedindo o consumo de proteína vermelha bovina por considerar a espécie sagrada coube-lhe duas funções: produção de leite e tração.

No Brasil as raças zebuínas aos poucos ganharam suas especificidades entre a carne e o leite. Todavia, aqueles que preconizaram seu rebanho para a produção leiteira, não deixaram de utilizar-se do abate comercial para eliminar animais com baixa produtividade, defeituosos, refugados pelo mercado, ou com idade avançada. Valor carne agregado ao empreendimento leiteiro. Ocorre que ao dar um posicionamento exclusivo e diferenciado à raça indicando uma funcionalidade, que significou um sinal de qualidade e um fator de diferenciação, definiu. O Gir é leiteiro!

Ao afirmar que um animal é “gir leiteiro” significa que o mesmo pertence à raça Gir ao qual foi acrescida uma palavra de domínio público “leiteiro”, como poderia ser “carne”. E isso não parece muito claro àqueles que se digladiam em meias verdades. De acordo com o Serviço de Registro das Raças Zebuínas, a raça é Gir. No registro expedido pela ABCZ, a raça é Gir. Agora a adjetivação dessa raça, cada criador, entidade promotora da raça que utilize a sua.

A toda essa pecuária zebuína, cujo passado extraordinário conseguiu firmar racialmente todas as raças zebuínas eu diria: “O passado consolidou posições de pureza racial, o futuro nos reserva a eficiência racial.” João Gilberto Rodrigues da Cunha, ex-presidente da ABCZ, 1989.

Foi necessário corrigir o tamanho dos tetos para um bom trânsito nas pastagens, o mesmo com relação ao umbigo dos machos; os chifres para um melhor manejo, mas, sempre preservando a “pureza racial de origem”. Todavia, quando se buscou a “eficiência racial” não se deu muita importância a essa “pureza racial de origem”. No entendimento de alguns o importante era o balde, e aos que não concordavam com esse posicionamento, a balança, como se não houvesse o caminho do meio.

Ao admitir que o animal enquadrado no “padrão racial de origem” não possui aptidão leiteira, havendo a necessidade da ingerência de um indivíduo “leiteiro” para esse tipo de exploração, é o mesmo que negar a raça como leiteira. E, com isso, também a possibilidade de existência de animais melhoradores dentro do “padrão racial”. Ou não? Se o denominado “gir leiteiro” é Gir, esses animais melhoradores só podem ter saído de dentro da própria raça. Ou não?

Por que a sugestão ao Conselho Técnico das Raças Zebuínas de proibição de uso da expressão “gir leiteiro” aos animais da raça Gir? O marketing do “gir leiteiro” incomoda quem? Por que esse absurdo de sugerir duas raças Gir no Brasil, algo inexeqüível do ponto de vista constitucional? O Congresso Nacional não vai revogar toda a legislação pertinente desde 1936, ferindo inclusive a Convenção Internacional de Unificação do Registro Genealógico Bovino (Tratado de Roma), onde o Brasil é signatário ao lado de mais de 160 países.

“Em princípio, não poderá haver em cada Estado, mais do que um Registro Genealógico para uma mesma raça. No caso em que houver um só Registro para raças que têm características étnicas e funcionais diferentes, assim como as raças cuja área geográfica é particularmente extensa e que estão sujeitas a condições diferentes de clima, de habitat ou de alimentação suscetíveis de provocar diferenças de conformação, poderão ser abertas no mesmo Registro diversas seções, cada uma correspondendo a um tipo de raça ou a uma região por ela povoada. A criação de diversos Registros e a abertura de Seções não se poderá fazer sem autorização e, somente sob o controle de órgão especial previsto na letra D do Protocolo de assinatura anexo a esta Convenção para a organização do Registro Genealógico Nacional, e disso, terá dado conhecimento ao Instituto Internacional de Agricultura.” Convenção Internacional de Unificação do Registro Genealógico Bovino (Tratado de Roma) promulgada no Brasil pelo decreto 3.457, de 15 de dezembro de 1938, publicado no DOU de 18/01/1939.

Na primeira frase fica claro a impossibilidade de em um mesmo país haver “mais que um Registro Genealógico para uma mesma raça”. Porém, a possibilidade de “ser abertas no mesmo Registro diversas seções”, como o já existente com o Gir Mocho: raça Gir, variedade mocha. No caso específico, raça Gir, variedade leiteira; raça gir, variedade frigorífica; raça Gir, variedade dupla aptidão; e, finalmente, aos “puristas” simplesmente Raça Gir, inexistindo a variedade, uma vez que Gir, variedade padrão seria redundância.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Tramelas ou taramelas zebuínas?

No Brasil só preocupa-se com a tramela depois que o ladrão invade a casa. Foi sempre assim e assim sempre será. No caso específico do padrão racial de origem da raça gir não foi diferente. Foi preciso que um animal descaracterizado excessivamente ganhasse um Torneio Leiteiro numa dessas exposições ranqueadas para que houvesse a preocupação com a tramela e tomasse uma atitude com relação as permissividades de seus técnicos com relação ao julgamento para o registro definitivo.

Mas o descuido com a porta continua. Durante a EXPOZEBU/2011 mais uma fêmea foi a óbito vítima de produtos farmacológicos para acelerar seu metabolismo; Mais uma vez uma vaca zebuína alcança uma lactação de fazer inveja a qualquer vaca holandesa com 250 anos de seleção leiteira. E tudo isso aos olhos daquela que tem como obrigação ser a guardiã das raças zebuínas no Brasil. A “coisa” chegou a um ponto tal que estão querendo encher os humildes currais leiteiros desse país com Brahman, Tabapuã e Nelore, raças comprovadamente de aptidão frigorífica. Mas não há o que se desesperar, num momento desses, serão tantos os animais mortos num Torneio Leiteiro que alguma atitude deverá ser tomada.

Com as medidas tomadas pela ABCZ no que diz respeito ao cumprimento do “batistério” como dizia Zeid Sab, com certeza outro problema se intensificará na Gir, a questão do DNA – data de nascimento alterada -. Não tenho dúvida disso! Mas também não há o que se desesperar. Será chegado o momento em que um bezerro será desmamado já pronto para trabalhar, e no caso das fêmeas, parindo quando deveriam estar sendo enxertadas.

Sempre defendi a ideia de que para solucionar esses problemas basta liberar geral. O egocentrismo irá roubar o bom senso e os absurdos se responsabilizarão pela moralidade. Lembro-me que sobre esse caso do DNA o saudoso Antônio Ernesto de Salvo, presidente da CNA, com quem tive o prazer de conviver na mesa diretora da ABCZ, certa feita, contratou um grupo de estatísticos na tentativa de buscar uma solução para o problema. A proposta era boa e aplicável, por isso foi esquecida.

Sempre ouvi a máxima de que dentro de seu curral cada criador tem a liberdade de “trabalhar” da maneira que melhor lhe prouver. Isso é fato! Todavia, os anos tem mostrado que os meios de comunicação, notadamente a internet tem trazido produtores à realidade que nem sempre o marketing mercadológico satisfaz. É preciso entender isso.

O futuro sinaliza para um trabalho coletivo, de rebanho, e não individual como está sendo feito sobre animal A ou B. Se olharmos para os empresários do setor que se utilizam do gado holandês ou Jersey, falam em média de rebanho e não de indivíduos.

Se queremos realmente projetar a raça Gir como produtora de leite nos trópicos pelas vantagens que possui é preciso rever certas posições. Quando afirmei em um texto aqui neste blog que o gir brasileiro não diferenciava da equinocultura de elite, fui “apedrejado” como a adúltera do Livro Sagrado. Mas entendo que ao invés de tratar de um rebanho leiteiro, ele é que tem que tratar de mim, caso contrário não justifica o empreendimento. Prazer se obtém através de hobby!

Aqui mesmo neste blog também diferenciava a posição entre ser fiel e ser leal. Fidelidade tem a ver com subserviência, enquanto lealdade vislumbra responsabilidade. Por isso, utilizo-me desse espaço para opor àquilo que penso não ser o correto. Sou o “dono da verdade”? Não! Mas ao menos não peco por omissão.

Por Luiz Humberto Carrião no Blog girpontocom

sábado, 16 de julho de 2011

Empreendedorismo na raça Gir

Ao contrário dos agricultores e pecuaristas do nosso tempo, nossos antepassados da Revolução Agrícola NÃO teriam praticado conscientemente a SELEÇÃO ARTIFICIAL com vistas a características desejáveis. Duvido que eles se dessem conta de que, para aumentar a produção de leite, é preciso cruzar vacas boas produtoras com touros nascidos de OUTRAS vacas boas produtoras e DESCARTAR a cria dos animais que não produzem bem.”, Richard Dawkins, 2009.

Criou-se a cultura de que o mercado é a referência para o sucesso de todo empreendimento. A partir de então, o produto campeão de venda é sustentado pelo que se define de marketing, que consiste na performance de atividades que buscam realizar antecipadamente às necessidades e tendências do consumidor. Muda conforme a mudança do consumidor; conforme a alternância dos anos ou a transformação de tendência. Marketing é o mercado em movimento.

Não basta simplesmente conhecer o mercado; é necessário identificar as oportunidades, estimular o interesse sobre o produto que se pretende vender, avaliar as forças dos concorrentes, calcular a demanda e definir o consumidor alvo.

O sucesso da raça Gir se deve dentre outros fatores ao posicionamento exclusivo e diferenciado que lhe foi dado através da poderosa expressão “gir leiteiro”. Ao indicar a funcionalidade leiteira para a raça trazendo um sinal de qualidade e um fator de diferenciação, transformou a raça no que os americanos chamam de trustmark: absoluta confiança que acaba por gerar uma relação de cumplicidade com os consumidores. A satisfação e compensação oferecida ao consumidor pela cumplicidade incorporou culturalmente o que é ser criador de “gir leiteiro” e o que isto representa em forma de prazer.

Sempre digo que a expressão “gir leiteiro” passou a funcionar holisticamente possibilitando ao seu criador/consumidor autoafirmar sua identidade na raça, e, simultaneamente, o integrou em sociedade passando a definir consciente e inconscientemente suas atitudes de consumo. O feedback de relações/ experiências positivas com a "expressão" e melhores preços no mercado geraram outro tipo de cumplicidade, tornando o criador/consumidor um advogado da causa.

Chega um momento em que a mudança no criador/consumidor não só virá com a alternância dos anos ou pela transformação de tendência, mas pela necessidade de sobrevivência no negócio. E isso, já começa a acontecer. Toda pressão seletiva sobre o leite na Gir fechou em C.A. Everest. Animal que, onde lhe houve uma predominância no acasalamento, aconteceu. Filhos e filhas, netos e netas estão aí para comprovar sua eficiência genética para a produção de leite. Na pressão seletiva leiteira brasileira, sem C.A. Everest não há salvação? Não é bem assim.

Dawkins define: “é preciso cruzar vacas BOAS produtoras com touros nascidos de OUTRAS vacas BOAS produtoras e DESCARTAR a cria dos animais que não produzem bem.” Atentem para a palavra OUTRAS. Vamos ver o que diz Rinaldo dos Santos, 1996: “Diz a Zootecnia que o máximo de melhoramento é conseguido pela união de extremos. Assim, para obter um melhoramento em leite, basta acasalar duas famílias leiteiras diferentes. O produto F-1 é a expressão máxima de heterose nos cruzamentos […] A heterose pode ser obtida, também, pelo uso de raças diferentes, ao invés de famílias da mesma raça […] tem-se o máximo de heterose inter-racial.

Vale lembra que heterose é o estado em que a primeira geração dum híbrido é mais forte do que qualquer das famílias ou raças paternas. Contudo, não devemos esquecer que o gene não contamina sexualmente. "Um indivíduo descende de dois genitores, mas um gene tem apenas um genitor. Cada um de seus genes tem de ter vindo ou de sua mãe ou de seu pai, de um e apenas um dos seus quatro avós, de um e apenas um de seus oito bisavós, e assim por diante." Richard Dawkins, 2009.

Agora vamos atentar para a palavra DESCARTAR utilizada por Dawkins. Ela significa no processo seletivo ELIMINAR e não DESFAZER-SE do animal menos produtivo. A credibilidade de um processo de melhoramento genético inicia-se pela identificação correta dos animais; depois pela veracidade dos dados coletados a campo, vez que o técnico responsável pelo melhoramento genético trabalha com dados a ele apresentados; e, finalmente, a seriedade de descarte (abate) dos animais considerados improdutivos para o trabalho que se deseja. Com isso, a mudança no criador/consumidor não virá com a alternância dos anos ou alteração de tendência, e sim, pela necessidade de continuidade no negócio, que muita das vezes ocorre de maneira compulsória pelo investimento já ocorrido.

Citado C.A. Everest por ser o representante dentro da raça que predomina nos Sumários de Touros Leiteiros, contudo, isto não significa que não haverão outros. Claro que sim! Ainda não apareceram por falta de um trabalho de melhoramento genético, onde os resultados financeiros sejam consequência do trabalho de pesquisa, e não ao contrário, como costumeiramente esse "desafio" cientifico é trabalhado no Brasil.

Por isso, acredito numa premência de pesquisas sobre animais que fogem ao lugar comum já pesquisados e com largo material genético disponível no mercado, para que a EVOLUÇÃO DA RAÇA sobreponha de maneira universalizada sobre marcas e rótulos.

Luiz Humberto Carrião

sábado, 11 de junho de 2011

EM TEMPO, O TEMPO FAZ JUSTIÇA AO GIR

Certa vez, o físico norte-americano John Wheeler sugeriu que “o tempo é aquilo que impede que tudo aconteça de uma só vez”.

Quiçá, esta citação seja uma maneira de me justificar o porquê de não haver defendido a raça Gir através de uma argumentação científica há um tempo em que, o senso comum prevalecia sobre o caráter científico nas concessões que o Serviço de Registro Genealógico das raças zebuínas abria à vertente leiteira.

O tempo nos tem conduzido a todo tempo a busca de questões expressas pela razão sobre nossas posições. Às vezes o tempo exige tempo para o amadurecimento do entendimento.

A questão dicotonômica na raça Gir pouco me interessou até o momento em que a literatura agregou aos poucos conhecimentos que tinha sobre a raça de que, fenotipicamente, era única entre os zebuínos. O porquê disso? Foi então que me interessei a estudá-la, tomando por base a literatura existente e os conhecimentos de criadores pioneiros, levando-me a optar por um rebanho “puro de origem”.

A defesa desse padrão “puro de origem” se expressa na não concordância da criação de um novo padrão racial no Brasil, como se houvesse a possibilidade da existência de duas raças Gir. Padrão este, totalmente descaracterizado daquele estabelecido quando do início da escrituração zootécnica da raça pelo SRG/MAPA/ABCZ. Também, à tentativa dos criadores desse novo padrão em colocar “pureza de raça” como sinônima de “pureza de origem” para justificar a descaracterização de seus animais. E nesse quesito, é sabido que existe uma diferença reveladora entre as expressões. E não poderia ficar de fora dessas justificativas, incursões artificiais e falácias no processo de produção leiteira da raça, e mesmo, a defesa daqueles que consomem e nela acreditam.

Apesar de o tempo ter se atrasado no tempo, uma luz é acesa. Nunca acreditei na existência da escuridão, e sim, na ausência de luz.

A exigência do SRG/MAPA/ABCZ sobre o padrão racial estabelecido através de animais “puros de origem” indiana, isto é, zebuínos não deixa de ser uma luz. Aliás, que luz! Mas isso é só o primeiro passo diante da caminhada que temos pela frente.

Luiz Humberto Carrião

O GRANDE EQUÍVOCO: PUREZA RACIAL x PUREZA DE ORIGEM

Existe uma diferença reveladora entre “pureza de raça” e “pureza de origem”. Conscientemente, ou inconscientemente, uma tem sido colocada como sinônimo da outra, o que não é correto. Taxonomicamente, os indivíduos passam a cruzarem entre si a partir do que é classificado como Espécie e a classificação de subespécie ou raça são conferidas a grupos de espécimes que se separam em regiões diferentes, e, por ficarem isolados por muitas gerações fixam caracteres semelhantes. Uma subespécie ou raça não adveio de uma criação unilateral, e sim, de cruzamentos entre os espécimes, negando o conceito de “raça pura”. Contudo o conceito de “pureza de origem” implica a certeza de que indivíduo A ou B vieram da mesma origem: se européia Bós Taurus taurus e se indiana, Bós Taurus indicus.

Uma espécie pode possuir diversas subespécies ou raças que isoladas sofrem mutações aparecendo diferenciações genotípicas e fenotípicas atribuídas à interferência do meio. Para alguns biólogos aí reside o fator raça. Diferencia-se um individuo Guzerá de um Gir por uma série de caracteres como crânio, orelhas, chifres, pelagem, etc..

O trabalho de descrição do padrão racial para a expedição do certificado de “Pureza de Origem” (PO) não surgiu de maneira aleatória, nem tampouco tem alguma implicação com “pureza racial”. Partiu de referências em animais vivos importados, passando por descrições de pessoas que estiveram na Índia e análises de animais indianos em fotografia. Foi traçado um conjunto de características que pudessem identificar essa “pureza de origem” em cada raça, que depois foi facilitada pela escrituração zootécnica por parte do SRG. Normalmente a recusa pelo Técnico do SRG está ligada a caracteres que fogem a esse padrão racial de origem ocorre numa tentativa de evitar a dominância de caracteres trazidos da ancestralidade remontada à espécie, ou mesmo de defeitos transmissíveis, chegando ao aleijão.

Por questões sobejamente conhecidas a ABCZ abriu concessões ao padrão de “pureza de origem” na Gir provocando o aparecimento de indivíduos alheios ao padrão oficial, criando uma dicotomia entre os criadores, onde de um lado figuram aqueles adeptos à “pureza de origem” e de outro, os que priorizam a “produção individual.”

Atualmente, criadores da segunda opção estão criando um padrão racial para o que chamam de “gir leiteiro” muito distante do padrão estabelecido pela “pureza de origem”, dando a entender que existem duas raças Gir no Brasil.

Luiz Humberto Carrião

segunda-feira, 6 de junho de 2011

ABCZ exige rigor a seus Técnicos com relação ao padrão racial

ABCZ exige rigor a seus Técnicos com relação ao padrão racial

De 180 animais (machos) colocados a julgamento para o Registro genealógico somente 13 foram aprovados

O certificado de pureza de origem (PO) ou de pureza de origem importada (POI) acompanhado do pedigree do animal, e o certificado de categoria LA (Livro Aberto) aos animais “cara limpa” que contemplem as características referentes ao padrão-racial estabelecido pelo Serviço de Registro Genealógico (SRG) são expedido pela Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), através de suas delegadas e escritórios técnicos regionais espalhados pelo país.

Aos animais registrados no LA, uma observação: após a segunda geração de cruzamento com animais PO, sua progênie é registrada na categoria de PO (puro de origem).

A genética mostra uma diferença reveladora entre “árvore de genes” e a “árvore genealógica”. Na primeira cada gene de um indivíduo tem de ter vindo de seu pai ou de sua mãe; de apenas um dos seus 4 avós; de apenas um de 8 oito bisavós; na segunda (pedigree), o indivíduo vem de seu pai e de sua mãe, de seus 4 avós, de seus 8 bisavós, e assim por diante. Como diria o filósofo Tim Maia, “uma coisa é uma coisa, outra coisa e outra coisa.”

No cruzamento absorvente entre espécies diferentes, por exemplo, pai (Bós Taurus taurus) e mãe( Bós Taurus indicus) um gene X responsável por uma característica tanto pode vir através do pai como da mãe; de somente um dos seus 4 avós; necessariamente, de um de seus 8 bisavós, e, assim por diante.

Os genes definem sua linhagem através de machos e fêmeas com igual probabilidade. Isto significa que um animal PO (puro de origem) através de cruzamento absorvente pode ter herdado, por exemplo, características produtivas do pai e fenotípicas da mãe, e vice-versa. Nisso o padrão racial é quem define.

O trabalho de descrição do padrão racial das raças zebuínas foi de uma meticulosidade impar por uma equipe chefiada pelo veterinário José Rodrigues Calheiros, com a colaboração de Waldemar Cruvinel Ratto, na década de 30 do século passado. Partiram de referências em animais vivos importados, passando por descrições de pessoas que estiveram na Índia, até análises de fotografias.

“A principal função do SRG é a fixação do patrimônio genético visando à melhoria da qualidade e da produtividade dos rebanhos. Com isso, assegura-se a garantia de origem dos filhos dos reprodutores. O SRG executa esta função inscrevendo, em livro próprio, todo animal considerado enquadrado no seu padrão racial. Os reprodutores registrados e controlados pelo SRG exercem importante função de aprimoramento racial de um plantel, sendo, pois, imprescindível a uma seleção criteriosa.” (Lopez, 2001, p. 73).

Atentem para as frases: “melhoria da qualidade e da produtividade dos rebanhos” e “inscrevendo, em livro próprio, todo animal considerado enquadrado no seu padrão racial.” A função do SRG objetiva a padronização racial aliada à produtividade.

Ora, se um indivíduo obtido entre duas espécies diferentes através de cruzamento absorvente pode herdar características produtivas de seu pai e fenotípicas de sua mãe, e vice-versa, somente o padrão racial estabelecido à raça pelo SRG poderá aproximá-lo o mais possível de sua pureza de origem. Ao contrário, se ao invés do padrão racial optar pela produtividade podem determinar em pouco tempo a redução populacional de pureza racial de determinadas subespécies ou raças, ameaçando-as inclusive de extinção.

Recentemente, consta que em um dos maiores rebanhos de “gir leiteiro” do Brasil, de 180 animais machos colocados à presença de um Técnico da ABCZ para classificação ao Registro Genealógico, 167 foram recusados por estarem fora do padrão racial estabelecido pelo SRG da ABCZ, somente 13 efetivados.

Se isso realmente ocorreu, tem sua significação.

Luiz Humberto Carrião

sábado, 4 de junho de 2011

Um breve estudo sobre a Raça Gir

Um breve estudo sobre a Raça Gir

Carl Von Linné (1707 – 1778) apresentou à sociedade científica do seu tempo a Taxonomia, ciência que classifica os organismos vivos, unificando a linguagem de numerosos taxonomistas em países diferentes. A Taxonomia estabelece regras para dar nomes aos animais, a partir do trabalho apresentado por Linné, botânico, zoólogo e médico sueco, em 1758.

Os nomes dos animais devem ser escritos em latim.

Todo animal tem obrigatoriamente dois nomes no mínimo. O primeiro é o gênero e o segundo o da espécie

O nome do gênero deve ser sempre escrito com inicial maiúscula e o da espécie com inicial minúscula

Quando se dá o nome específico em homenagem a uma pessoa, acrescenta-se a letra “i” no sobrenome do homenageado se for do sexo masculino

Quando o homenageado for feminino, acrescentam-se as letras “ae” ao sobrenome

Quando existe subgênero o seu nome deve ser escrito depois do nome do gênero, entre parêntesis, e sempre com inicial maiúscula

Se um gênero ou espécie foi descrito mais de uma vez, deve-se sempre usar o primeiro nome que o animal foi descrito, mesmo que seja errado. É a Lei da Prioridade

Quando existe subespécie, o seu nome deve ser escrito depois do da espécie e sempre com inicial minúscula.

O nome dos animais deve ser grifado ou deve se usar um tipo de letra diferente ao texto; em geral se usa o negrito ou caracteres itálicos.

Classificação taxonômica: Reino, Filo, Classe, Ordem, Família, Gênero, Espécie, Subespécie ou Raça.

Reino: Animalia (animal ou Metazoa) é composto por seres vivos pluricelulares, heterotróficos, cujas células formam tecidos biológicos, com capacidade de responder ao ambiente que os envolve ou, por outras palavras, pelos animais.

Filo: Chordata (abrange animais adaptados para a vida em água doce, salgada, terra e ar).

Classe: Mammalia (mamíferos) formam o grupo mais evoluído e mais conhecido dos Chordata.

Ordem: Artiodactyla (constitui uma ordem de mamíferos ungulados (divisão de mamíferos que compreende os animais de casco) com um número de par de dedos nas patas.

Família: Bovinae (constitui uma famílias de mamíferos ruminantes, a qual pertence animais domésticos como ovelha, cabra, boi e selvagens como antílopes e bisontes.

Gênero: agrupamento de organismos vivos/fósseis para agrupar um conjunto de espécies que partilham um conjunto muito alargado de características morfológicas e funcionais, um genoma com elevadíssimo grau de comunalidade e uma proximidade filogenética muito grande, refletida para existência de ancestrais comuns muito próximos.

Espécie: é um conceito fundamental da Biologia que designa a unidade básica do sistema taxonômico utilizado na classificação dos seres vivos. Estrutura-se em torno da constituição de agrupamentos de indivíduos (os espécimes) com profundas semelhanças estruturais e funcionais recíprocas, resultantes da partilha de um cariótipo idêntico, expresso numa estrutura cromossômica das células diplóides similar, que lhes confere acentuada uniformidade bioquímica e a capacidade de reprodução entre si, originando descendentes férteis e com o mesmo quadro geral de caracteres, num processo que, quando envolva um organismo sexuado deve permitir descendentes férteis de ambos os sexos.

Subespécie ou Raça: É uma subdivisão da espécie. Normalmente isso ocorre quando duas ou mais populações de uma mesma espécie se separam indo viver em regiões diferentes e por ficarem separados por barreiras geográficas por muitas gerações e não existindo trocas de genes entre essas populações isoladas umas das outras.

Os grupos isolados uns dos outros sofrem mutações com o tempo e assim aparecendo diferenciações genéticas e surgimento de novas subespécies ou raças nessa mesma espécie.

Então:

Reino: Animalia

Filo: Chordata

Classe: Mammalia

Ordem: Artiodactyla

Família: Bovidae

Gênero: Bós

Espécie: Bós Taurus

Subespécie ou Raça: Bos Taurus indicus (Gir, Guzerá, Nelore, Cangaian)

“Raça não é uma palavra claramente definida. Já com “espécie” é diferente. Existe um fato consensual de decidir se dois animais pertencem a uma mesma espécie: eles podem intercruzar-se? Obviamente não podem se pertencer ao mesmo sexo, ou se for jovem ou velho demais, ou se ainda por acaso um deles for estéril. Mas essas são filigranas, minúcias fáceis de contornar. [...]” (Dawkins, 2009, p. 464).

“O critério do intercruzamento confere a uma espécie um status único na hierarquia dos níveis taxonômicos. Acima do nível da espécie, o gênero é apenas um grupo de espécies bem semelhantes uma das outras. Não existe nenhum critério objetivo para decidir quanto elas têm de ser semelhantes, e o mesmo se aplica a todos os níveis superiores: família, ordem, classe, filo e os vários nomes como “sub” ou “super” que entremeiam essas categorias. Abaixo do nível das espécies, “raças” e “subespécie” são classificações usadas de modo mais ou menos permutável, e também nesse caso inexistem critérios objetivos que nos permitam decidir se dois indivíduos devem ou não ser considerados membros de uma mesma raça e que nos digam quantas raças existem. E temos ainda, obviamente, a complicação adicional, ausente acima do nível das espécies, de que as raças se intercruzam: por isso existem muitos indivíduos de raça mista.” (Dawkins, 2009, p. 464)

“Presume-se que as espécies, em sua trajetória para se tornarem suficientemente separadas a ponto de não poder intercruzar-se, passam em geral por um estágio intermediário no qual são raças separadas. Raças distintas poderiam ser consideradas espécies em formação, exceto pelo fato de que não existe necessariamente a expectativa de que o processo continue até o seu final - a especiação.” (Dawkins, 2009, p. 464).

Existem quatro tipos de especiação que os evolucionistas identificam como as explicações mais prováveis:

No caso da especiação alopátrica, as fronteiras geográficas reais separam as espécies fisicamente. Um rio ou uma cordilheira, por exemplo, podem causar a divergência de uma espécie.

Na especiação parapátrica, uma espécie se espalha em áreas grandes com ambientes diversificados. Eles se adaptam a essas novas áreas e, gradualmente, tornam-se espécies distintas. Não há uma característica geográfica definida que separe esses animais; eles podem se tornar espécies distintas simplesmente por causa da distância entre os grupos.

A especiação peripátrica ocorre quando um pequeno grupo se isola do núcleo principal da espécie. Como esse grupo é apenas uma pequena parte da população total da espécie, todas as diferenças genéticas que tornam a espécie robusta podem estar ausentes. Isso constitui o que os biologistas evolucionários denominam efeito gargalo. Alguns dos genes que fluem dentro de uma espécie foram eliminados e separados do conjunto genético.

No caso da especiação simpátrica, os membros de uma espécie continuam vivendo lado a lado, mas separados em espécies diferentes.

Em cada um desses tipos de especiação, a espécie deve passar pelo processo de isolamento reprodutivo. Ora esse isolamento, por qual seja a causa, definiu características visuais capazes de identificar o que se convencionou chamar de raça zebuína, Gir, Guzerá, Nelore, Cangaian etc.

O conceito da superioridade racial do povo alemão exaltada pelo nazismo hitleriano através da associação com a raça ariana (do sânscrito Arya = nobre) provocou traumas irreparáveis e profundos à Humanidade, dentre os quais as experiências genéticas de Josef Mengele, em Auschwitz. Isto de certa forma ascendeu a chama da Ética sobre a ciência levando a “questão raça” como algo destrutivo às relações sociais e humanas. Dawkins coloca o dedo na ferida:

“Todos nós podemos concordar tranquilamente em que a classificação racial dos humanos não tem valor social e é inegavelmente destrutiva para as relações sociais e humanas. Essa é uma das razões da minha objeção a assinalar alternativas em formulários e á discriminação nas seleções de emprego. Mas isso não significa que raça “praticamente não tem significância genética ou taxonômica”. É isso que Edwars está querendo dizer, e sua argumentação é que, por menor que seja a parcela racial na variação total, se as características raciais que existem forem altamente correlacionadas com outras características raciais, elas são por definição, informativas e, portanto, têm significância taxonômica.” (Dawkins, 2008, p. 472)

“Informativas têm aqui uma acepção bem precisa. Uma afirmação informativa é aquela que nos diz algo que desconhecíamos. O teor de informação existente em uma afirmação é medido pelo quanto ela reduz a incerteza prévia. Por sua vez, a redução da incerteza prévia é a medida com base na mudança das probabilidades. Isto nos dá um modo de tornar matematicamente preciso o conteúdo informativo de uma mensagem, mas não precisamos nos incomodar com isso. Se eu disser que João é do sexo masculino, você saberá de imediato uma porção de coisas sobre ele. Sua incerteza prévia sobre a forma de genitália de João será reduzida (embora não eliminada). Você saberá fatos que antes desconhecia a respeito dos cromossomos, dos hormônios e de outros aspectos da bioquímica desse indivíduo, e haverá uma redução quantitativa em sua incerteza prévia quanto ao tom de voz, a distribuição dos pelos faciais, da gordura corporal e da musculatura de João. [...]” (Dawkins, 2009, p. 473)

“Agora, a questão da raça. E se disser que Suzana é chinesa, em quanto a sua certeza prévia se reduzirá? Agora você apostará que ela tem cabelos lisos e pretos (ou que um dia foram preto), uma prega de pele epicântica na extremidade interna das sobrancelhas e mais algumas outras características.” (Dawkins, 2009, p. 473).

Se eu disser a um pecuarista que sou criador de Zebu, muitas das incertezas prévias com relação a mim serão reduzidas. Por exemplo, que crio gado de origem indiana, caracterizado pelos chifres e a giba. Se indagado se é “gir leiteiro” e eu digo não, crio Gir, mais incertezas reduzidas, ou seja, seus conhecimentos mostrarão que crio um animal que morfologicamente apresenta uma convexidade de crânio ao formato de um ovo; chifres saindo na linha dos olhos, para baixo e para trás, orelha em forma de cartucho com uma dobra acentuada na ponta, o gavião; olhos serpenteados; chanfro médio, narinas e bocas grandes, mucosas pigmentadas, barbela, cupim avantajado nos machos, e delicado nas fêmeas, ambos em forma de castanha; diversidade de pelagem, temperamento dócil, de andar sincopado onde os rastos dianteiros servem de referência aos traseiros; rabo fino e longo, onde a vassoura varre os rastos; cisterna (depósito animal de leite) acima dos jarretes, etc..

Por que essa definição por parte de meu interlocutor? Por ser este o padrão racial elaborado pelos Técnicos do Registro Genealógico para servir de referência ao julgamento para o registro efetivado a partir de 1938. Porque este foi o Gir que veio da índia. Provavelmente, criado pelo seu pai e por seu avô.

Suzana e o Gir foram incertezas prévias reduzidas na questão raça, em função da presença visual de caracteres por eles herdados presentes na maioria da população as quais pertencem e que, encontram-se armazenados no inconsciente coletivo.

Caracteres visuais que fogem ao padrão racial não podem ser considerados filigranas, algo sem importância, porque podem aparecer em progênies futuras. O mesmo se pode dizer aos animais efetivados através de cruzamentos absorventes. Nestes casos, especificamente, esse indivíduo volta a compor a classificação taxonômica contextualizada na espécie, que se isolada reprodutivamente, irão fixar esses caracteres dando origem a outro padrão visual, originando outra raça.

Com isso, qual a conclusão que se chega com relação ao padrão racial criado pelos selecionadores de “gir leiteiro”? Num primeiro plano, o retrocesso à classificação taxonômica denominada espécie, e, assim que efetivado esses caracteres através do isolamento reprodutivo de sua população, esse padrão será fixado criando assim uma nova raça que não a Gir.

Se esse padrão adveio através de cruzamentos absorventes com a espécie Bós Taurus taurus (européia) trata-se de um subproduto da raça Gir, obtido através do que se denomina cruzamento industrial, que também o exclui como raça Gir.

“O DNA mitocondrial também pode ser revelador, particularmente para padrões muito antigos. Se compararmos o DNA mitocondrial do leitor com o meu, poderemos determinar há quanto tempo eles compartilham uma mitocôndria ancestral. Como todos nós herdamos nossas mitocôndrias de nossa mãe, e, portanto, das avós maternas, bisavós maternas etc., as comparações mitocondriais podem nos dizer quando viveu nossa ancestral mais recente pela linha feminina. O mesmo pode ser feito com os cromossomos Y para determinar quando viveu nosso ancestral mais recente pela linha masculina, mas, por razões técnicas, isso não é fácil. A beleza do DNA do cromossomo Y e do DNA mitocondrial está em que nenhum deles é contaminado por mistura sexual. Isso facilita buscar a origem dessas classes especificas de ancestral.” (Dawkins, 2009, p. 77)

Na comparação do DNA mitocondrial e do cromossomo Y de dois “indivíduos ditos gir”, o que se pode determinar é o quanto de tempo que eles compartilham uma mitocôndria ancestral e quando viveu a ancestral mais recente pela linha feminina, o mesmo podendo ser feito com o cromossomo Y com relação à ancestralidade masculina.

Tomando como probabilidade de que toda espécie zebuína (Bos Taurus índicos) veio de uma ancestralidade comum, é pouco provável que o DNA mitocondrial e do cromossomo Y venham determinar sobre o fator racial.

Mais uma vez, o quesito raça passa a ser efetivado a partir de caracteres externos expressos em um indivíduo. O que se pode aferir através do DNA mitocondrial e do cromossomo Y é se esse indivíduo possui miscigenação entre as espécies Bós Taurus indicus e Bós Taurus taurus.

A importância do indivíduo é reconhecida pelos geneticistas, apenas como veículo da sobrevivência de genes, que são definidos como cada uma das partículas cromossômicas, mais ou menos independentes entre si, que encerram os caracteres hereditários.

Como se pode ter reprodução e linhagem, esta no sentido de linha de parentesco ascendente e descendente, mas não hereditariedade? Essa é a lição que o fogo nos ensina.

“A verdadeira hereditariedade significaria a herança não do fogo em si, mas das variações entre os fagos. Alguns são mais amarelos, outros mais avermelhados. Alguns rugem, outros crepitam, outros ainda sibilam, soltam fumaça, cospem. Há os que possuem laivos de azul ou verde nas chamas. Nossos ancestrais, caso tenham estudados seus lobos domesticados, hão de ter notado uma diferença reveladora entre as linhagens de cães e linhagens de fogo. Nos cães, semelhante gera semelhante. Pelo menos parte que distingue um cão de outro é transmitida por seus pais. É obvio que existem também as influências externas: alimentação, doenças e acidentes. No caso do fogo, todas as variações provêm do meio, nenhum descendente de uma fagulha progenitora. As variações resultam da qualidade e umidade do combustível, da direção e força do vento, da tiragem da lareira, do solo, de vestígios de cobre e potássio que adicionam toques verde-azulados e lilases à chama amarela do sódio. Em contraste com o cão, nada na qualidade de um fogo adulto chega por intermédio da fagulha que o originou. Fogos azuis não geram fogos azuis. Fogos crepitantes não herdam a crepitação do fogo-pai que cuspiu sua fagulha iniciadora. Os fogos apresentam reprodução sem hereditariedade.” (Dawkins, 2009, p.646).

“A história é a majestosa Torre da Experiência que o tempo erigiu no espaço infindo dos anos decorridos. Não é fácil tarefa alcançar o cimo desse antigo edifício e gozar da vista dum panorama completo; não há ali elevador, mas os moços têm os pés fortes e podem tentar-lhe a ascensão. Aqui vos dou a chave que vós abrirá a porta. Quando voltardes, compreendereis a razão do meu entusiasmo”. (Loon, 1953, p. 9)
Referências Bibliográficas

Dawkins, Richard. A grande história da evolução: na trilha dos nossos ancestrais / Richard Dawkins ; com colaboração de Yan Wong ; tradução Laura Teixeira Motta. – São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Loo, Hendrick Willen Van. História da Humanidade / Hendrick Willen Van Loo ; Tradução Marina Guaspari. – Porto Alegre, 1953.

Luiz Humberto Carrião
Publicado no www.girpontocom.blogspot.com em 4/junho/2011

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Tradição por Luiz Humberto Carrião

Os criadores de Gir de tradição e por tradição tem que continuar sendo “puristas” sob pena de negar a Tradição, que para Ananda Coomaraswamy, “representa a doutrina dos princípios primeiros, os quais são inalteráveis.”

A palavra tradição deriva do latim “traditio” que significa transmissão; algo que é transmitido ou transferido do passado para o presente, seguido e partilhado durante gerações.

Os criadores de vanguarda que estão ou procuram estar à frente de seu tempo, através de idéias, ações e experiências científicas, têm que continuar sendo de vanguarda sob pena de admitir a existência fixista da tradição.

São posições antes de qualquer outra, Ideológicas.

Criada no século XIX por Tracy, a palavra ideologia, significa, etimologicamente, ciência das idéias. Pressupõe ação, ao exortar e orientar o grupo a agir no sentido da consecução dos objetivos que se propõe e que considera seus, de direito [royalties à Escola Secundária de Alberto Sampaio].

Em ideologia o errado não existe. Existe sim o contrário. Respeitar o contrário é uma questão de democracia, isto é, a cidadania exercida de maneira soberana, direta ou indiretamente.

Tais concepções, infelizmente, o homem só vem tomá-las em consciência depois de muitos caminhos percorridos. Só então, vem conceber que antanho a essa descoberta serviu mais aos interesses desses ou daqueles, do que a si próprio. Chega então o momento da reflexão. Aí reside o aprendizado da vida.

A escrita como fonte histórica eterniza o pensamento. E este pode advir do senso comum, opiniões que manifestamos ao longo da vida, sem ter a visão do todo, ignorando que as coisas relacionam entre si; ou, pelo senso crítico baseado na Episteme (ciência) buscando um olhar totalizante para os fenômenos contextualizados cada vez mais na especialização da ciência. Permanecer no senso comum é ter uma visão fragmentada da realidade que pode a qualquer instante ser superada através de uma práxis-científica.

E na gir, a práxis-científica já surpreendeu o senso comum. Quando da segunda bateria de touros a serem selecionados para o PMGRG – Programa de Melhoramento Genético da Raça Gir – foi inscrito um animal contextualizado no “gir leiteiro”. As críticas foram avassaladoras. Todavia, no exame de DNA para auferir o percentual de sangue zebuíno, o animal era 100% sangue indiano, ao contrário de um animal daqueles que o criticaram.

O padrão racial por si só não garante a ancestralidade genuína de um animal. Principalmente, num rebanho formado por absorvência. O exemplo acima é uma prova disso. Nem tão pouco a produtividade de uma raça pode ser auferida sobre artificialidades de manejo (alimentação, nutrição e produtos farmacológicos) e trabalhando com indivíduos, não com média de rebanho.

Ao final, em ideologia, a História tem mostrado que sempre um dos contrários acaba como dominante. Neste caso, resta saber o qual.

Luiz Humberto Carrião

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Um pouco da História de Criadores da raça GIR

Repaginado no Grupo "Giristas de Carteirinha" (Grupo do Facebook) por Luiz Humberto Carrião, na qual, compartilho na íntegra:

"Texto publicado na Revista Gir & seus cruzamentos [órgão oficial da Associação Brasileira dos Criadores de Gir – ASSOGIR]. Ano 1, nº 6 – Agosto/setembro/2003

"[Aqui repaginado por solicitação do criador-diretor da ASSOGIR, Waldir Barbosa de Oliveira Junior]

O Gir entristeceu: morreu Jairo de Andrade

“Quando ele próprio se libertou de todo desejo de seu coração, o mortal deste mundo, tornou-se imortal em Brahman. Na verdade, tudo é Brahman.”

Apesar de estar localizado na maior cidade brasileira, o ambiente traduz a beatitude divina.

Um pórtico esboçado na arquitetura oriental dá passagem àqueles que vão ao reencontro da Divindade. Ali, o silêncio é como a música, não atua pelo que diz, e sim, pelo que é – uma linguagem universal.

Um estreito caminho calçado com bloquetes, arborizado de ambos os lados leva a uma capela não muito distante da entrada. Uma plataforma de concreto em formato de mesa retangular aguarda sempre o próximo sarcófago. É necessário pela legislação que se aguarde no mínimo 48 horas para o início do ritual.

Um forno de altíssima potencialidade calórica é acoplado à reduzida Capela por um túnel equipado por uma esteira rolante. Uma pequenina urna de porcelana abriga o que restou da menor individuação de Deus na Terra.

A Alma, agora Espírito, com a volatilidade ao desligar-se de seu invólucro biológico dirige-se a algures inimagináveis nesta amplitude infinita diante de nossos olhos. E foi ali, aos acordes do Prelúdio nº 1 para Cravo, de Johann Sebastian Bach, seguido pela Ave Maria de Charles Gounot, que se cumpriu a seu pedido o ritual hindu.

O grande jequitibá, o homem que muitos consideravam imortal, de sorriso leve, cabelos grisalhos a farfalhar, sempre vestido de branco e com uma paixão inigualável pelo Gir, em poucos segundos foi reduzido a um punhado de cinzas, que no dia seguinte, carregado pelos netos, numa sepultura simples no Cemitério Jardim das Palmeiras, foi depositado para ficar na saudade de todos nós.

Na última visita ao casal Góes, Leda e Aderbal, na Chácara Canaã D’Gal relembrava das odisséias pelas exposições por este Brasil afora; das brigas por melhores pavilhões para a raça Gir; das influências nos julgamentos dos animais; de suas paradas em Corumbaíba para tomar sorvete no Pingo de Mel; de sua luta pra manter-se vivo; já cansado e bastante emotivo, sempre enxugando as lágrimas em meio aos versos que declamava dizia a Aderbal que deveriam a partir de então, encontrar-se ao menos quinzenalmente, pois o tempo cumpria a cada dia o seu papel. Era uma despedida.

Homem de determinação ímpar que sempre deixou de lado o passado, arquitetando no presente os planos para o futuro.

Na véspera de sua morte lá estava ele na Fazenda Forquilha, em Redenção, no sul do Pará, juntamente com os empregados dentro do curral apartando gado.

A garra e a determinação de viver sempre falaram mais alto até o dia 4 de agosto último (2003), quando encontrou no Nirvana – o paraíso – abandonado Maya – a ilusão – em busca de seu encontro com Brahman – a Divindade – para integrar-se ao imenso mar celestial, que na adversidade, estabelece e mantém a harmonia do Universo.

Se a sua partida deixou um rasto de saudade entre aqueles que ficaram, lá em cima a coisa foi diferente quando se encontrou com Rodolfo Machado Borges, Celso Garcia Cid, Tarley Vilela, Evaristo Soares de Paula, Ene Sab, Vicente de Souza Araujo Junior, e tantos outros.

Luiz Humberto Carrião